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BC desacelera queda da Selic, que vai a 10,50%, e aprofunda carga pesada de juros sobre governo e população

Com a decisão, entidade monetária altera ciclo de cortes de 0,50 a cada reunião do Copom, iniciado em agosto de 2023.

Foi de 10,75% para 10,50% a taxa básica de juros da economia brasileira (Selic). A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), anunciada nesta quarta-feira, 8 de abril, de reduzir em apenas 0,25 ponto percentual (p.p.) o índice, confirma a mudança no ritmo de cortes que a entidade monetária implementou desde agosto de 2023, após grande pressão do movimento sindical, setores produtivos e do governo Federal.

“Como nós sempre denunciamos, os juros extorsivos praticados pelo Banco Central impactam no desenvolvimento do país, sob o argumento de que é preciso controlar a inflação. Mas a inflação segue sob controle, inclusive segue em queda, ainda que lenta”, destacou a presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) e vice-presidenta da CUT, Juvandia Moreira, se referindo ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Outro impacto da Selic é sobre os títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional, por ser o principal índice usado nessas negociações. “Portanto, o governo brasileiro acaba gastando muito mais com o pagamento dos juros dos títulos, recurso que poderia ser direcionado para importantes áreas, como saúde, educação e, agora, defesa civil, diante do aumento de tragédias ambientais, como estamos sofrendo mais notadamente no Rio Grande do Sul”, complementou o secretário de Assuntos Econômicos da Contraf-CUT, Walcir Previtale.

Mudança de posição do BC

Até cerca de duas semanas atrás, a indicação feita pela entidade no relatório da última reunião do Copom, de maio, era de que manteria o ritmo de cortes em 0,50 p.p., neste e nos próximos encontros, o que significa que o Brasil poderia chegar com uma Selic de 8,5% no final do ano.

Porém, a partir de meados de abril, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, começou a indicar que iniciaria um movimento diferente, que poderia ser a redução no ritmo de cortes, manutenção ou até aumento da Selic.

As justificativas apontadas por ele foram de que o processo desinflacionário e da economia estão em ritmo de desaceleração, e, ainda, com o mercado de trabalho “aquecido”. Este último ponto, na visão do mandatário do BC, seria um problema, pois elevaria o consumo e a inflação.

“Quando Campos Neto alega que essa queda no ritmo de redução da Selic se dá por causa do aumento do emprego, acaba entrando em contradição, porque vai justamente na contramão das missões do BC, que é colaborar com aumento do nível de emprego”, lembrou Juvandia Moreira.

Leia também: Contraf-CUT cobra do Banco Central metas de pleno emprego

O economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Gustavo Cavarzan, explicou, por outro lado, que “o problema é que essa visão de Campos Neto ignora que a inflação recente da economia brasileira está muito mais vinculada a fatores externos, como a política de preços de combustíveis e conflitos geopolíticos globais do que a um suposto aquecimento da demanda interna do país”.

Outro argumento apontado pelo presidente do BC, para a mudança no ciclo de cortes, foi a alteração dos planos do Federal Reserve (Fed), banco central norte-americano, em reduzir a taxa básica de juros naquele país.

No início do ano, havia essa possibilidade. Mas, agora, o órgão de política monetária estadunidense fala em iniciar o ciclo de cortes nas reuniões de setembro, dezembro ou somente em 2025. Como os Estados Unidos têm economia mais forte do que o Brasil, a manutenção da taxa de juros básica por lá, que hoje está entre 5,25% a 5,5%, acaba sendo mais atraente para a maioria dos investidores, ainda que o Brasil tenha uma das maiores taxas do mundo.

Em outras palavras, quanto maior a diferença de juros entre Brasil e Estados Unidos, mais atraente o investimento aqui. Da mesma forma, quanto menor o diferencial, menos atraente.

“Porém, a decisão do Copom desta quarta-feira ignora que a perspectiva de inflação no Brasil segue sob controle – o último boletim Focus indica expectativa de 3,72% para o IPCA em 2024 – e que a economia brasileira precisa de juros baixos para que o setor produtivo possa investir, gerando emprego e renda para a população”, observou Cavarzan.

O economista completou que a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) contínua, divulgada pelo IBGE, “mostrou uma elevação de 0,5 ponto percentual na taxa de desemprego no último trimestre, o que significa um aumento de 542 mil pessoas em busca de trabalho. Reduzir o ritmo de queda dos juros, nesse contexto, irá apenas engessar a atividade econômica brasileira, num momento em que a necessidade de intervenção e coordenação do setor público é urgente, ainda mais diante das tragédias ambientais no Rio Grande do Sul. Mais uma vez o BC joga contra o país”, finalizou o economista.

Entenda

– O Copom, entidade do BC, se reúne por dois dias, a cada 45 dias, para definir a taxa básica de juros do país, chamada Selic. Neste último encontro, realizado entre 7 e 8 de maio, a entidade anunciou redução da da taxa básica de juros da economia brasileira (Selic) de 10,75% para 10,50%.

– Com essa decisão, a entidade mudou o ritmo de queda de 0,50 p.p., iniciada em agosto de 2023, quando a Selic estava em 13,75%, patamar em que a taxa básica foi mantida durante um ano, ou seja, desde agosto de 2022.

– A Selic mais alta aumenta o custo de vida do trabalhador, os empréstimos para pessoa física e empresas e a dívida do Estado.

– Os principais beneficiados com a Selic elevada são os detentores dos títulos da dívida pública. Atualmente, as instituições financeiras são as maiores detentoras de títulos federais.

– Diante do quadro, movimentos sociais, incluindo o movimento sindical, realizam, há mais de um ano, manifestações e campanhas com a hashtag #JurosBaixosJá.

– No comunicado da última reunião, realizada entre 19 e 20 de março, quando a Selic foi reduzida de 11,25% para 10,75%, o Copom indicou que continuaria com a tendência de corte. Mas isso mudou, a partir de meados de abril, quando o presidente da entidade, Campos Neto, passou a indicar alteração da política monetária.

– Os argumentos utilizados pelo Copom para manter a Selic elevada é o risco de elevação de juros no país, por conta do aquecimento econômico. Entretanto, o país segue registrando índices de preços sob controle e abaixo da meta estipulada pelo próprio Banco Central.

– Economistas de tendência desenvolvimentista avaliam que uma taxa básica de juros razoável deveria, pelo menos, estar no patamar de um dígito, para que o Brasil deixe de ter uma das maiores taxas de juro real (que é o resultado da Selic menos a inflação) do mundo.

Fonte: Contraf-CUT

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