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OPINIÃO | Sobre o território dentro de mim. Por Regina Maria Miranda

Algo latente desde o primeiro encontro com as mulheres indígenas foi uma intenção muito clara de somar forças. Uma perspectiva de fato decolonial, pois o que elas fizeram com suas falas foi lembrar de tudo que nos une, enquanto mulheres e enquanto pessoas preocupadas com os rumos destrutivos da sociedade contemporânea. Crise ambiental, pandemia, epidemia de depressão são preocupações de todes. E, nas sábias palavras das lideranças indígenas que ouvimos, isso sempre esteve presente, numa perspectiva de propostas de intervenção, seja no micro ou macrocosmo.

Fui para o encontro de encerramento do Clube de Leitura Feminista, no dia 02 de dezembro, sem fixar uma expectativa exata. Pessoa sempre cética, fui com a proposta pessoal de deixar todo esse meu ser, constituído a partir minha perspectiva e história de vida, do lado de fora da aldeia. Qual não foi a sensação de “quentinho no coração” quando, já na fala de abertura, na casa de rezo, a cacique Andreia disse exatamente isso: que deixássemos lá fora o que é de fora. Que olhássemos para dentro de nós mesmas ali, naquele momento. Que nos importássemos com quem e como somos, cada uma, cuidando-nos apenas de nós mesmas dali em diante, durante as atividades daquela manhã. E o quanto do que somos ou achamos que somos, vem de fora da gente, não é!?

O sábado começou cedo, 7 horas da manhã já no celular, organizando os últimos detalhes para que todas pudéssemos chegar em segurança à aldeia (e voltar em segurança também). Muitos rostos novos, mulheres que ficaram sabendo do nosso encontro de encerramento e, tal como nós, sentiram esse chamado que veio de dentro de nós mesmas, e ecoou em cada uma. Mulheres e meninas em busca de compreender sua própria ancestralidade. Assim como as mulheres de raça e compromisso já há muito tempo conhecidas, que ajudaram a tornar possível cada encontro. A acolhida, com um café colaborativo, foi muito carinhosa, sentimo-nos realmente bem-vindas. Depois, tivemos a honra de ser convidadas à casa de rezo, onde os cantos rituais e ouvimos as falas sábias e carinhosas de Elza, mãe da cacique Andreia, da própria cacique, de Jovina Kaingang e de Indiamara.

Depois desse momento de sintonia, fomos ao local reservado para o encontro exclusivo das mulheres. Lá ouvimos e falamos, aprendemos sobre o uso de diversas ervas e tivemos a honra de receber um banho de ervas. Definitivamente, a experiencia mais significativa e potente do dia. Uma vivência que, para mim, foi muito intensa. Como disse no início, busquei estar de mente aberta e não ter nenhuma expectativa prévia do que seria esse momento. Trata-se de um encontro com a natureza, a de fora e a de dentro da gente. Breves momentos de olhar para si, reconhecer os próprios limites, dores, se deixar sentir e expressar esses sentimentos, enquanto a natureza de ervas e daquelas mulheres detentoras da sabedoria de cura agem lavando essas dores, essas doenças do espírito para fora.

A doação delas vai além daquilo que se pode comprar, elas doam um pouco de si mesmas, um pouco da energia vital do mais profundo de si para ajudar aos outros no caminho para dentro da própria essência. Fico refletindo o quanto até nós (não indígenas) perdemos com o processo genocida da colonização, o quanto poderíamos estar com a saúde mental muito mais “em dia” se o invasor europeu não tivesse tentado de toda forma arrancar essa sabedoria dos povos originários. Esse processo foi uma violência que atingiu a todos, várias gerações que vivem o resultado dessa intolerância.

Arriscando suscitar a insatisfação de quem me lê, vou lançar mão de um bordão que grita aqui na minha cabeça, de tão óbvio: encerramos com chave de ouro os encontros do Clube. E, para mim, esse dia foi um belo pontapé inicial para a tradicional retrospectiva de fim de ano. Opa!!! Mais bordões. Acho que fiquei tão leve depois da vivência que estou me permitindo até mesmo essa escrita fácil. Um ano de muito diálogo, sincero e amoroso, do tipo que só quando se juntam tantas mulheres de fibra e de íntimo afetuoso se pode ter. E já que já estou nessa seara chavônica, não custa: foi de lavar a alma.

Regina Maria Mirandaé formada em Letras, pela UFPR, e especialista em Educação à Distância. Em Curitiba, é bancária do Banco do Brasil e professora particular de Produção de Texto.

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